SENTIMENTO DE PERTENCER OU PERTENCIMENTO - A MEMÓRIA MATERIAL E IMATERIAL PERMANECE EM NÓS


Pertencimento - A memória Material e Imaterial que permanece em nós

Dedicado aos habitantes da Linha Carahá que souberam definir, agindo, todo o pertencimento que habita em seus corações. Que Gramado siga este exemplo, por pequena que pareça a luta, ela sempre guarda a identidade e a memória de uma localidade.

Então vamos entender o que é auto-estima, valoração da etnia, acolhimento e, especialmente, cidadania. Porque não basta sentir e entender. É preciso agir e participar. Pertencimento é uma forma de cidadania.
Zeladoria do que amamos.

Hoje, um termo cultural evidente e moderno. Mas acho que apenas o destaque veio agora, porque, na realidade, “pertencimento” é uma palavra bem da antiga, com um olhar da antiga e um comprometimento mais antigo ainda.

Os dicionários registram vários significados para o verbo “pertencer”, dentre os quais interessa o significado “ser parte”, do qual deriva a palavra “pertencimento”. “Pertencimento”, ou o “sentimento de pertencimento” seria a crença subjetiva numa origem comum que une indivíduos. Estes indivíduos pensam em si mesmos como membros de uma coletividade. Esse sentimento pode fazer destacar características culturais, raciais e religiosas.

“O ser humano em sua essência necessita de acolhimento, pertencimento e validação. Assim, sua auto-estima é definida principalmente a partir da sua matriz familiar. Por sua vez, a auto-estima define a possibilidade de sucesso nas diferentes áreas da vida. Portanto, os seus referenciais parentais, a forma como é tratado, e como a vivência são vitais em sua vida.”(Norma Emiliano, Terapeuta Familiar)

“A sensação de “pertencimento” significa que precisamos nos sentir como pertencentes a tal lugar e ao mesmo tempo sentir que esse tal lugar nos pertence, e assim acreditarmos que podemos interferir e, mais do que tudo, que vale a pena interferir na rotina e nos rumos desse tal lugar... Por outro lado, esse sentimento de pertencimento tem relação com a noção de participação. Na medida em que o grupo se sente ator da ação em curso, o que for sendo construído de forma participativa desenvolverá a co-responsabilidade, pertencendo os resultados a todos desse grupo, pois conterá um pouco de cada um.” (Ana Lúcia Amaral, Procuradora Regional da República)

Entro neste assunto para refletir sobre o significado do “pertencimento” diante do Patrimônio Histórico e Cultural de uma comunidade como a minha. Para a maioria das pessoas, quando se fala em patrimônio, se fala em propriedade. 
Quando se fala em Patrimônio Histórico, se fala em monumentos, casas velhas, coisas que alguns doidos querem preservar. Quando se fala em Patrimônio Cultural, só lembram que são de origem italiana, alemã ou outras quaisquer.

Porém hoje em dia, o conceito de Patrimônio Cultural é muito mais vasto. O espólio dos museus, o chafariz, a paisagem, o candeeiro, o móvel antigo, as danças e cantares do povo, as bandas, os instrumentos, os utensílios de trabalho, os documentos, as fotografias, são exemplos da pluralidade e da extensão deste conceito. Uma vez, era só patrimônio imóvel ou móvel. 
Agora é patrimônio material e imaterial.

Sentem a diferença? Ou o sentido de pluralidade e pertencimento foi acentuado e a gente consegue entender melhor!?

Patrimônio Cultural fala da qualidade intrínseca e do significativo valor coletivo, social ou cultural. Assim, uma rua de casas térreas, uma construção da mais recente arquitetura contemporânea ou um núcleo histórico de uma vila, um cemitério, uma capelinha de madeira perdida na recosta das pedras brancas de alguma colônia, uma escolinha de madeira esquecida pela educação moderna, cabem no conceito de Patrimônio, da mesma forma que uma igreja barroca européia, de uma fortaleza ou de um palácio neoclássico, desde que reúna determinadas características que justifiquem esta categoria. As rezas familiares, as receitas das nonas, as formas de cultivo, as benzeduras, os avisos da natureza, tudo representa um patrimônio cultural a ser preservado. As águas correntes, os antigos moinhos coloniais, as mós, os arados, os fornos de barro, as técnicas de plantio, os parreirais, a roda de chimarrão, a cancha de bocha, a quadra de futebol colonial, o capitel na beira da estrada, o portão rural, a nascente, a árvore centenária, o pontilhão antigo, a venda na beira do caminho...

Aí vamos encontrar o tal de “pertencimento”, pois compete aos habitantes do entorno histórico, a valoração de sua identidade naquele espaço e as formas a serem adotadas para que seja preservado o Patrimônio Cultural ali vivenciado. Pode ser pelo significado da qualidade arquitetônica, paisagística, urbanística, decorativa, construtiva, tecnológica, cultural. Pode ser por suas potencialidades turísticas, museológicas, arquivísticas, históricas, humanas. Tudo com identidade própria e reconhecível, especialmente, pelos habitantes deste espaço sócio-cultural.

A Arqueologia urbana hoje pode garantir até turismo cultural para uma obra moderníssima que se implanta numa cidade. Basta haver conhecimento, pesquisa e busca de uma relação de pertencimento entre o antigo e o novo, entre o passado e o presente. É sabido que os sistemas urbanos mudam, mas o conceito de que sempre vai pertencer ao “vivente” daquele momento histórico, este não muda. Envelheça e verás, nas calçadas de tuas ruas nativas, todo o passado armazenado na arquitetura nova e moderna que ali se instalou. 

Não se chama a isto de “saudosismo” e sim de “pertencimento”. 

Quando eu vivi em um determinado lugar e quando o lugar viveu em mim, certamente, viveremos juntos para sempre. Como? Por fotografias, por documentos, por emoções, por lembranças, por sons, por cheiros, por sabores. Pela Memória material e imaterial que vai restar em nós.

Então vamos entender o que é auto-estima, valoração da etnia, acolhimento e, especialmente, cidadania. Porque não basta sentir e entender. É preciso agir e participar. Pertencimento é uma forma de cidadania. 
Zeladoria do que amamos.

E, vamos e venhamos, zelar pelo que amamos, não é zelar apenas pela família, pela casa e seus pertences, pelo terreno e seus bens, pela rua que cruzamos. É zelar pela identidade, pela comunidade, pelas formas adotadas para a trajetória do lugar que habitamos. Se eu cuidar apenas do que é meu, nunca vou ter a prática do “pertencimento social e coletivo”.

Por hoje, a minha reflexão fica por aqui. Mas espero que a sua reflexão possa continuar, buscando entender mais e melhor, porque você está aqui, agora, neste exato lugar. 
Deve haver algum “pertencimento” envolvido nesta sua história.


Por Marília Daros

Fonte:http://www.gramadosite.com.br/cultura/historia/mariliadaros/id:31750

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