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Mostrando postagens de Abril, 2015

A DOR DE EXISTIR - PEDRO CARVALHO

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A dor de existir²
Podia ser quem quisesse. Um poeta malogrado em sua escrita logorréica à sua amada, uma criança de fala e movimentos débeis, um homem atazanado em seus próprios conflitos, a própria elegância e cortesia ou ainda um fracasso. Ele só não podia ser apenas uma coisa interinamente. Oscilava como o tempo que em suas frações menores que milésimos, mais infames que milésimos, faz um camaleão incorporar suas matizes, o vento volver a curva e um pensamento vagar em despropósito.

Um homem e um distúrbio. Sim, tinha caráter; sim, era digno. Mas algo o afetava. Sofria irrefletidamente. Sensibilizava-se de quase tudo, embora, por instantes, revelava-se sisudo e severo. Tinha bom senso de humor, ótimo senso de humor, podia irradiar vendo um cachorrinho auferir-lhe gracejos; mas de vez por outra, no meio de um largo sorriso, suas maçãs se lavavam de um líquido choroso que, todavia não eram alegres. Não, não eram alegres. Mesmo assim, com toda a crise, podia ser quem quisesse: o poeta e…

SOBRE FLORES - PEDRO CARVALHO

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Sobre flores Minhas armas são flores;
já nascem para morrer.
Cor - pólen.
Cor - fogem.
 por 

ELA - PEDRO CARVALHO

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Ela Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. Àquela altura, o quarto atrás do seu calcanhar, escapara definitivamente de alcance. Do lado de fora, na rua, caía uma chuva, indômita, gris, que frutificava as propriedades sinistras do lusco-fusco. Num rompante, atravessou de uma calçada a outra se desviando dos carros congestionados e caminhou precipitada sob as marquises.
O café, atabalhoado de gente, parecia não se incomodar com a imagem da mulher revirando sua bolsa, arrancando lá de dentro um maço de cigarros amassado e molhado. Trêmula - de frio ou por conseqüência da decisão tomada há poucos instantes –, com a carranca pálida, manchada de maquiagem, mal sustentava o cigarro. A boca, miúda e fina – um traço, borrada da cor que deveria ser dona, tragava e lançava lufadas mortiças. Pediu e serviu-se de café com uísque. A luz, débil, que pendia sobre sua cabeça, estampava no cenho, mais acentuada, as exp…